3 x 4 da ditadura, Selfie para democracia

Quando lhe roubam o futuro é natural que o cidadão olhe para o passado e, lá encontraremos imagens insinuando-se, desde o inicio do processo de abertura politica propondo versões românticas para história, outras nem tanto, mas todas repousando sobre o mesmo estofo, o poder. Logo, as fotos serão o caminho a seguir. Principalmente para refletir sobre a incrível decomposição política a reboque de violência sem sentido. Portanto se elas não sucumbiram ao tempo, trazem algo mais. 

A imagem de Herzog, assassinado em 1975, na sede do DOI-CODI é o itinerário propriamente dito. Aos 12 anos de idade, vi esta foto pela primeira vez, a partir dela transitei pelo tempo em direção ao presente, na busca por vestígios do avanço das lutas políticas.

Um processo célere 

Para tornar possível este processo selecionei imagens, contextualizando-as, contudo sem querer reescrever a história ou inventar uma memória politicamente correta

O que esta posto é a história do Brasil, contada por um adolescente no regime ditatorial, homem maduro no período democrático.  

Apesar da distinção entre um regime e outro, a democracia é um processo que ainda hoje continua sobrevivendo do sangue de brasileiros invisíveis às lentes das objetivas. 

Por isso destaquei a foto de Vlado, como era conhecido. Ele foi torturado, depois enforcado em sua cela. Uma covardia. A imagem marcou a minha geração, período macabro de severas restrições ao modo de 'pensar e de  expressar.' 

Porém diante dos desdobramentos do inquérito, sobre sua morte em 12 de outubro de 1977, o presidente General Ernesto Geisel exonerou o ministro do Exército Silvio Frota. 

No ano seguinte, três anos de sua morte, no dia 27 de outubro de 1978, o processo movido pela família do jornalista revelou a verdade sobre sua morte: 

"A União fora responsabilizada pelas torturas e pela morte do jornalista. Um crime politico."

Esse foi o primeiro processo vitorioso movido por familiares de uma vítima do regime militar contra o Estado.

Em 1980, foi a vez do líder sindical Luiz Inácio da Silva também ser preso nas dependências do Exército. Aliás, lembro-me de Ulisses Guimarães, ao lado de Franco Montoro e do jovem Fernando Henrique Cardoso entre muitos anônimos caminhando pela liberdade de Lula.

A massa anônima eram todos aqueles sem fotos, nem narrativas os quais figuravam, figurantes na história de suas próprias vidas. Mas que se não fosse por eles a imagem do líder sindical poderia ter sido apenas mais uma nos arquivos do DOI-CODI. 

Contudo, naquele tempo não havia espaço para covardes. A sociedade exercitava a liberdade diante do horror de ter que conviver com mais uma covardia cometida contra um dos seus.

Logo, a massa ensaiava sem saber o papel de pano de fundo, para o enquadramento das objetivas que já buscava especificamente por alguns rostos. Os filhos da elite ficavam bem na foto, ao lado da massa. 

Observava, assim a manipulação das imagens. 

"VERÁS QUE UM FILHO TEU NÃO FOGE À LUTA, NEM TEME, QUEM TE ADORA, A PRÓPRIA MORTE."

Filho de quem?

A época sempre que o povo precisava enfrentar as injustiças caminhávamos lado a lado. Eis a massa. 

Para nós a presença era compromisso, vice e versa. A natureza gregária movimentava aqueles tempos de chumbo.

Caminhando, assim o movimento social era percebido enquanto tal.

Além da foto de Vlado, de Lula, outra foto que me veio à memória sem o enquadramento da redemocratização foi a de Celso Daniel, morto. 

É dogmática. Caminho íngreme, difícil para qualquer cidadão que desejasse uma síntese entre os dois períodos históricos, ditadura e democracia. 

Foi justamente nesse processo de transição que deixamos de existir enquanto movimento social. Daí em diante o caminho foi definido para solitários.

Entretanto, há poucos dias me dei conta que já se passaram mais de 10 anos da morte dele e nada. Um tal de Sombra foi preso, depois solto. A tal da morosidade da justiça democrática assim decidiu.

"Quando perdemos a capacidade de nos indignarmos com as atrocidades praticadas contra os outros, perdemos também o direito de nos considerarmos seres humanos civilizados"  Vladimir Herzog.

Portanto, esse período que vai das imagens de Herzog até chegar a Celso Daniel me fizeram repensar a politica. Nesse hiato, tanto se falou, foram tantas as manifestações, imagens, eleições, discursos;

Proclamamos a justiça social com a nova Constituinte, celebramos a força dos Movimentos Sociais, na luta por direitos civis. Pra quê?

Se novamente fomos excluídos, desqualificados para uma cidadania de papel na nova Constituição. Então ao colocar o passado em perspectiva podemos concluir que envelhecemos com muito menos dignidade e justiça;  

A medida que em plena democracia assumimos com certa naturalidade 70.000 homicídios de brasileiros todos os anos. Portanto, a massa anônima da democracia atual, hoje é composta por cadáveres, invisíveis.

Daí a minha descrença, desde a posse de Lula até a eleição da Dilma os administradores do poder têm feito a gestão das imagens com muita competência. 

Por isso insistem, vivemos plena democracia! Bradam os poderes! Mesmo que a frágil divisão entre eles, indicar que não. 

Por outro lado, com o olhar atento ao conjunto de imagens, a de Celso Daniel, ficou bastante fora do contexto democrático. 

Ainda que, o poder tenha hospedado há tempos, amigos de Celso, militantes que se dedicaram na luta pelo avanço dos direitos civis e democráticos. Isso não parece ter sido suficiente para inspira-los no sagrado exercício da legítima representação política que sempre deveria buscar a verdade. 

Neste caso não foi a verdade que venceu, mas governabilidade, que venceu, novamente assumindo a mesma função que o AI-5 havia assumido na ditadura, a função de tapete que encobre tudo. Por todas estas evidências o balanço que eu faço do período democrático, é um triste balanço.

Especialmente, depois de assistir ao debate no qual o Senador Magno Malta (PR) implacável na defesa do ex-Ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, demitido por indícios de corrupção. Fez o triste balanço, ficar evidente.

    “Finalmente!” dizia ele, em resposta ao líder do PSDB Senador Álvaro Dias: 

   “O joio e o trigo, estão juntos. Até dentro de uma igreja”! 
          
       E, concluiu: 

     "Eu já vi de tudo em política, só não vi chover pra cima, Senador". 

        Silêncio.


O silêncio foi eternizado na foto sem resposta, a mesma resposta pela qual tivemos de esperar 40 anos, desde o assassinato de Herzog. 

Adquirimos nesse hiato a memória, do esquecimento, do silêncio, dos segredos de justiça, do foro privilegiado, da morosidade, da falta de escrúpulos, da mentira, dos recursos e, mais, do medo, da dor e da doença. 

Aspectos necessários ao regime para o enforcamento lento das aspirações da massa que atende pelo nome de sociedade, tudo em nome da governabilidade.

Portanto, resta-nos a memória crítica contra a gestão do esquecimento, que nos alcança pelas imagens de horror, amenizadas apenas pelo cinismo da propaganda oficial. 

Claudemir Sereno

                                                                                                                                                                                                                                                                                       



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